quarta-feira, 21 de abril de 2010

TEXTO - DOMINGO

D O M I N G O                                                                                                              09/ 09/ 09


Domingo, 10 da manhã, sol lindo, dia claro, céu azul sem borrão.

Paulo chega à casa da sua noiva Antônia. Ela e a irmã Dirce, já o deveriam estar esperando, prontas para irem para o clube.

Antônia, que já se encontrava pronta, o recebe já com seu biquíni por baixo de uma apertada bermuda que delineia um belo e bem tratado corpo. O rosto de morena clara, cabelos longos e negros, olhos grandes e negros também, enfim, um lindo conjunto numa só garota.

Sua irmã Dirce ainda se aprontava. Acabara de tomar um gostoso banho bem quente, e já estava em seu quarto a se arrumar frente ao espelho da penteadeira.

Corria o ano de 1972, mês de setembro, quase entrando a primavera. O dia é que não me lembro.

Naquela espera, Paulo, encostado na lateral do seu lindo carro, um Buick 1950, preto, muito conservado, que à época ainda rodava imponente pelas ruas de Belo Horizonte, muito confortável. As quatro molas espirais davam aos passageiros a sensação de estarem num navio. Luxo à vontade; hidramático, rádio de alta fidelidade, o máximo para a época, ar condicionado, vidros elétricos, banco elétrico, etc., privilégios dos anos dourados dos americanos, e dos quais à época também usufruíamos.

Paulo conversa despretensiosamente com sua noiva, riem de algumas brincadeiras, e trocam carinhos, beijos, e longos abraços, quando olham para o lado mais alto da rua e vêem, descendo a mesma, a mãe de Antônia, uma distinta senhora de uns setenta anos, ainda bem forte e bastante lúcida, totalmente descontrolada, trêmula, cambaleante e pálida, se escorando com uma das mãos nos muros e paredes das casas.

Ao verem a senhora em tal estado, deixaram de lado as carícias e correram ao seu encontro para ampará-la, ainda uns vinte metros rua acima, sem saber o que estava acontecendo. Tudo estava muito anormal.

Cada um a segurou por um braço, e ambos a conduziram para dentro de casa onde ela se sentou numa confortável poltrona. A idosa senhora não conseguia falar. Pálida e assustada balbuciava palavras desencontradas e sem nexo.

Trouxeram um copo de água com açúcar para acalmá-la. Assim, aos poucos Dona Nilma foi se relaxando e conseguindo colocar sua mente em ordem. Também, passou a se expressar com maior clareza.

Até então, ninguém sabia de nada, nem entendia nada. Nem conjecturas faziam do porque dessa situação inesperada e preocupante. Não havia motivo aparente já que ela não apresentava qualquer indício de que pudesse ter sido atropelada por um carro, levado um tombo, ou que outro acidente pudesse ter acontecido. Não havia ferimento em qualquer parte do corpo por Dona Nilma, não tinha febre nem se queixava de dor.

Após alguns minutos, já com Dirce presente a esfregar álcool caseiro em suas mãos e braços, a idosa senhora começou a falar claramente, e o que disse foi estarrecedor e verdadeiro já que, para quem a conhecia bem, sabia que ela não inventaria mentiras, nem uma história tão incrível.

Ela disse para Paulo e para as filhas:

“Levantei-me bem cedinho, ainda não eram 6,30. Fui ao banheiro, e quando voltava para o meu quarto, passei pelo de voces e as vi, minhas filhas, e constatei que dormiam um profundo e calmo sono. Bateu-me uma ternura danada. Mãe, vocês sabem como é, fica parecendo uma boba quando vê suas filhas, tão lindas e sadias, dormindo!

Eu sabia que logo acordariam, e a casa ganharia alegria e vida, e nessa bela manhã...

Depois, ao invés de ir para o meu quarto, fui para a cozinha preparar o café.

Passei-o no coador e o coloquei na garrafa térmica. Em seguida, saí e fui à padaria onde comprei pães bem quentinhos, uma bisnaga de sal para Antônia e pão doce para Dirce, pois sei que elas gostam disso. Também, queijo prato, presunto, e um pedaço de requeijão que tinha acabado de chegar.

Voltei para casa e coloquei tudo sobre a mesa, além das xícaras das duas, tudo bem “arrumadinho” para quando elas acordassem.

Em seguida, peguei minha roupa e minha toalha, e fui ao banheiro. Tomei um banho morno, e às 7,30 saí para a missa das 8,00 na Igreja de Nossa Senhora das Dores.

Subi a rua, e na esquina aqui de cima, me encontrei com minha amiga Zilda que não via há alguns dias, e conversamos por uns 10 minutos. Ela se queixou muito de dor no peito reclamando que devia ser o coração que não andava bem. Logo nos despedimos. Ela seguiu seu caminho, eu fui para a igreja.

A missa foi linda. O padre José fez um belo sermão falando sobre São Francisco de Assis, relatando sua vida, sua obra e sua santidade como exemplos de uma vida santa, de renúncia aos bens materiais, de amor à natureza, desde os animais, que amava, até o canto dos pássaros, e as formigas com as quais brincava e com elas se emocionava, até as plantas às quais chamava de plantinhas. Deslumbrava-se com o irmão sol e a irmã lua. Dedicou toda sua vida a cuidar dos mais humildes seres humanos que chamava de irmãos, e sofria junto com eles. Tudo por amor a Deus a quem respeitava, obedecia, e seguia seus ensinamentos e mandamentos sem questioná-los.

Cheguei a imaginar a tristeza que o Santo sentiria se vivesse hoje, vendo seus irmãos se matando por nada, vivendo numa sociedade que deixa longe Sodoma e Gomorra nos piores dias, destruindo a natureza, matando sem dó os animais que tanto amava, destruindo voluntariamente a Terra, sua própria casa dada por Deus. Sentindo o distanciamento entre os “homens”, a volúpia dos ambiciosos, os desmedidos poderosos querendo ser mais que Deus...

Aí, a missa terminou, e fiquei algum tempo a conversar com minhas amigas Filhas de Maria, e meus amigos Congregados Marianos. Depois, desci as escadarias devagar, e vim embora para casa.

Quando cheguei à esquina aqui de cima, aonde na ida havia encontrado com Zilda, encontrei-me com a Neuza, e foi um encontro muito surpreendente para mim que perguntei a ela, que tinha se mudado para um bairro bem distante daqui, o que ela fazia ali, já àquela hora da manhã.

Ela, com as feições tristes, e enternecida, carinhosamente tomou minhas mãos, e pesarosa me disse que estava indo à casa de Zilda para cumprimentar a família pelo falecimento dela na sexta feira passada...

Um comentário:

  1. Esse relato que mostra o mistério da volta apos a morte,criando todo um suspense que só se revela no final.Me faz lembrar de meus irmãos mais velhos que gostvam de criar suspense com relatos envolvendo o retorno dos mortos.Sempre tive muito medo dessa estórias ...eu era bem criança e não entendia...só dormia de luz acesa por vários dias...e tinha muito medo!Essa estória me dá medo...vou deixar luz acesa... hoje...

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