quarta-feira, 21 de abril de 2010

TEXTO - A PERENIDADE DO AMOR

A  PERENIDADE  DO  AMOR


“Conta-se essa história que é dada como verdadeira, porém, como não foi testemunhada por qualquer pessoa que a atestasse verdadeira, a consideremos como lenda, linda lenda que diz sobre o quanto o amor pode transcender à morte, fazendo até cessar a vida para ser perene.”



            Do mausoléu, apesar de lacrado e não aberto há tempos, mais exatamente há 38 anos, irradiava uma energia estranha e forte. Saía do seu interior, vazava através das paredes de concreto revestidas com granito negro, e se espalhava por todo o derredor atingindo em cheio as pessoas que por perto passavam, e sem saberem por que, até sem notarem o gesto, instintivamente paravam e observavam atentamente aquele portentoso túmulo.

Alguns, sem se darem conta do que se passava, e sem entenderem porque, paravam diante dele, última morada de um desconhecido, mas lógo voltavam à realidade como se houvessem acordado de um transe. Então, olhavam meio desconfiados à sua volta, e com uma incógnita na cabeça retornavam ao seu caminho.

Voltando no tempo, no dia do velório, ainda na sala da mansão onde o morador desse mausoléu morrera de um ataque cardíaco fulminante, ele não só recebeu a visita dos parentes e amigos mais chegados, pessoas do seu relacionamento, como também um grande número de pessoas que apenas o conheceram através de noticiários, jornais, revistas, além de curiosos, pois o velório foi com as portas abertas para todos. Ele sempre esteve na mídia pois fora um político atuante, grande industrial e advogado polêmico de grandes causas. Mas, alguns entravam sem saber de quem se tratava. Aquele mesmo magnetismo que continuava iradiando do túmulo, já acontecera no seu  velvelório.                                                                E as pessoas, quando davam conta de si, se perguntavam; “que faço eu aqui?”

Voltando ao mausoléu, além da energia inexplicável que atraia e dominava os transeuntes, quem por ali passava sentia um sutil olor de cravos frescos, como se os que foram colocados em seu caixão a cercar-lhe o corpo inerte há 38 anos atrás estivessem tão frescos quanto no dia. Esse aroma transcendia o mausoléu e ia perfumar alguns metros adiante, o que também deixava as pessoas, no mínimo, curiosas.

Um dia, passando por perto, indo visitar o túmulo de um parente que ficava na mesma quadra, próximo do mausoléu, uma distinta, elegante, bem tratada e bem trajada septuagenária senhora sentiu aquele aroma dos cravos e, de repente, instintivamente lia na lápide o nome do defunto cuja imagem lhe veio à memória, nitida, tão nítida como o vira pela última vez.

Ela havia ido àquele velório, mas ao enterro não foi por motivos alheios à sua vontade, e porque não tinha tantos motivos para tal. Ela fora sua cliente num processo que teve que mover contra uma potente companhia de seguros, e aquele senhor que ali estava sepultado, fora seu advogado. E tudo ficou por aí, parado no tempo, já esquecido por ela. Afinal, sua condição não passara de cliente que freqüentou os escritórios dele por uns 5 anos, enquanto durou a ação. Mas, o relacinamento de ambos nunca saíu do âmbito formal entre advogado e cliente.

Aos poucos, sem perceber, sentindo o olor dos cravos cada vez mais forte, ela foi chegando mais pra perto do mausoléu, e através da grade de uma porta de ferro, que estava só cerrada, olhou seu interior, escuro, e sem qualquer atrativo.

Automaticamente abriu essa porta, e entrou no mausoléu.

À frente ficava o local onde se encontrava o caixão, sob uma lápide de granito preto, deitada, um pouco inclinada para frente, e sobre ela a lousa onde se lia: “Aqui jaz Dr. Fulano de Tal. Saudades dos irmãos, sobrinhos e tio.” As datas de nascimento e falecimento, e alusões aos títulos e comendas conquistados em vida, como: advogado, juiz, deputado, senador..., e, à sua frente, um pouco mais ao alto, um grande crucifixo em metal com um lindo e dourado  Cristo pregado nele.

Essa senhora, puxada por uma força invisível, instintivamente sentiu sua mão ser levada a tocar a lápide. E, ao tocá-la, sentiu um frisson, como se fosse um pequeno choque nas pontas dos longos e bonitos dedos que compunham aquela mão alva e muito bem cuidada, apesar das rugas e das manchas senis. Olhou em torno e percebeu que, naquele momento estava só. Ninguém por perto. Todos tinham ido embora, mas ela ficara ali, desligada do resto do mundo, sentindo essa repentina sensação e sem conseguir entender por que dali não se afastara apesar do adiantado da hora. Já se esvaiam as 17,00, e às 17,30 os portões do cemitério seriam fechados. Aliás, um lânguido prazer e uma estranha calma e serenidade sentia ao estar ali, tocando aquela lápide e sentindo aquele frisson. Até se esqueceu do parente que ia visitar. Algo muito forte a prendia àquele suntuoso mausoléu de granito negro.                                                                                                         Curiosa por conhecer todo o túmulo, olhou tudo em volta, mas quando olhou para o alto, se deparou com um enorme anjo em tamanho natural, esculpido em bronze, a exibir duas grandes asas, abertas como se quisessem abraçá-la. E miraram-se fixamente, olhos nos olhos, ela e o anjo.

Assim ficaram por longo tempo, olhos nos olhos com uma grande e invisível força a prendê-los nessa troca de olhares, profundos olhares...

Os portões se fecharam, ela nem percebeu.

Caiu a noite. O perfume dos cravos ficou mais intenso e atraente, e os olhos dela não se despregavam dos olhos do anjo.

De repente, como se um facão invisível cortasse a linha que prendia os dois olhares, ela sentiu-se liberta e conseguiu voltar a ver à sua volta. Só, já dentro do véu quase negro da noite, ouvia os piados e cantos das aves pousadas nos galhos das árvores próximas.

Aí sim, sentiu um grande choque. Como se voltasse de um longo e profundo sono, se encontrando novamente com o mundo real. Sentiu-se aflita e sem saber que atitude tomar. Afinal, que fazia ela ali, tocando aquela fria lápide de alguém que não lhe fazia sentido?                                                           Apenas o conhecera e fora ao seu velório há 38 anos atrás?

Havia a luz da lua que era quase cheia e iluminava bem. Enfim, estava atônita e sem forças para reagir e tomar alguma medida. Ir embora dali.                                                                                                     Mas, também não sentia medo. Pelo contrário, curtia uma grande serenidade, e se encantava com o aroma dos cravos, com o barulho das aves. Sentia-se à vontade e kuvre de qualquer medo, e até com vontade de ficar.

. Então, à luz daquele luar que prateava tudo, ela sentiu um forte impulso de olhar novamente para o rosto do anjo. E num repente exclamou: “Meu Deus, o que é isso!”

É que o rosto do anjo tomara a forma do rosto do falecido, no entanto, com as feições dele há 38 anos passados, mais novo, atraente, e do qual se lembrou claramente. Ele a mirava insistente e profundamente nos olhos tanto quanto antes o anjo a mirara.

E esse olhar, além de trazer-lhe uma profunda calma, sutilmente fazia-a ouvir, só com os ouvidos da mente, ele lhe dizer:                                                                                                                                           “Eu sempre te amei, desde o primeiro dia em que entraste no meu escritório, inteligente, sábia... Eras elegante, charmosa, e muito linda. Toda vez que por lá aparecias, vinha-me aquele impulso de dizer-te tudo, desabafar, declarar-me. Porém, minha timidez não me deixava abrir-me contigo. Mas, infelizmente morri antes de conseguir a coragem para declarar-me pessoalmente, trazendo essa frustrada memória para este túmulo. E, se não sabes, nem podes imaginar, foi a força desse amor que nunca morreu, que me fez induzir-te a hoje me visitar com a desculpa de visitares um parente teu que sei que é meu vizinho de última morada.                                                                                                  Meu amor! Tudo poderia ter dado tão certo! Arrependo-me de não ter-me declarado àquela época. Poderíamos ter sido muito felizes juntos, pois eu percebia, nos seus gestos, na sua voz doce e sensual, que tinha uma grande chance de ser aceito por ti que também era solteira como eu, e pelas nossas rápidas conversas, à parte do profissional, sentia que tínhamos muitas coisas em comum. Mas, ias embora e eu voltava para casa sonhando contigo e com os momentos que poderíamos passar juntos, com teus olhos, com tuas belas mãos, com teus lábios, com os beijos que fiquei por dar-te...”

Assim, o que se conta, é que a noite passou com os dois trocando sentimentos, e palavras sem som. Apenas trocas de sentimentos enclausurados no passado, saudades de um tempo e de uma atração de que ela, só agora, se dava conta. E a última coisa que ele deve ter dito para ela é que não a deixaria partir novamente, que não se separariam mais. Tanto é que, ao raiar o dia, os funcionários foram entrando para limpar as ruas e lavar os túmulos, e um deles gritou para os companheiros que havia, no mausoléu do doutor, que ele cuidava, sobre a lousa de granito preto, o corpo de uma senhora, estendido e com um largo sorriso a enfeitar-lhe o rosto já eternamente adormecido, com os braços por sobre o corpo, e nas mãos entrelaçadas um belo cravo branco, fresquinho, perfumando tudo.

3 comentários:

  1. Esse conto que envolve morte ,amor e mistério .conseguiu manter meu intresse até o final...AS histórias misteriosas acabam sempre atraíndo leitores,pois esse estílo sempre desperta curiosidade,Uma narração mostando uma estória de amor verdadeiro onde o mistério termina com a paz ,e de uma maneira inédita
    mas perfeita.

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  2. Amiga poetisa e artista plástica de grande sensibilidade e talentos que sobram, saiba ser para mim uma honra a ta visita ao meu texto. Espero-a sempre comparecendo aqui, nunca se esqueça desse teu poeta. Pedro Paulo, o Pedro Lecuona Brasil.

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  3. Muito lindo o conto.
    Vou reler.
    Gosto muito de histórias assim.
    Você tem um grande talento, meu amigo!!!

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