quarta-feira, 21 de abril de 2010

TEXTO - ROLETA RUSSA

R O L E T A     R U S S A                                                                                               31/ 10/ 09


Mais ou menos dez da noite. A tensão era enorme.

Para quem estava presente e assistia, a cena foi chocante. Alguns entravam em pânico, outros se sustentavam em total suspense, mulheres histéricas desmaiavam, alguns se escondiam onde e como desse, e ninguém podia fazer nada.

Uma sala de jogos de um pequeno cassino clandestino que ficava nos arredores de uma grande cidade.

A polícia já o havia fechado por duas vezes, e ele reabria em outro local. É que seu proprietário tinha cobertura do delegado da delegacia local, e cobertura dos policiais da área que recebiam o seu. Então, faziam vistas grossas.

Voltando à cena, a roleta russa acontecia por motivos passionais.

A arma já havia sido disparada por duas vezes sem deflagrar a fatídica bala, uma vez na fronte de cada um dos dois jogadores restantes de uma mesa de jogo de pôquer onde, inicialmente, cinco competiam.

Jairo, um dos adversários, jogador profissional e freqüentador assíduo do cassino, se engraçara com Clara já fazia algum tempo. Linda mulher de trinta, amante de Lúcio, um sessentão que por ela curtia verdadeira paixão.

Mas, Clara, apenas fingia amar Lúcio, e com ele ficava por causa da sua grande fortuna e das condições atuais de noiva do mesmo que não gozava de boa saúde, era cardíaco, lhe dedicava total amor, afeição e confiança, por isso já preparava todos os papéis para o casamento que se daria daí a alguns meses.

Ela já tinha um plano bem preparado junto com Jairo. Aguardariam um tempo após o casamento, então, dariam cabo de Lúcio, de tal forma que não ficaria rastro para serem descobertos. Tinham já um esquema para ele sofrer um terrível e fatal acidente, então, os dois, que tinham mais ou menos a mesma idade, iriam curtir a vida juntos, e desfrutar da fortuna de Lúcio da qual ela passaria a ser única dona, pois ele, viúvo há cinco anos, não tinha herdeiro a qualquer título.

E o clima continuava tenso. Jairo mirava o inimigo que, sentado à sua frente, suava frio ao levar a arma para a posição de tiro contra si mesmo.

A roleta acontecia motivada pela fatalidade.

Lúcio confiava plenamente em Clara que lhe dava todos os motivos para tal. Além de moça recatada, de bons princípios, pelo menos para ele, tinha berço, pois, vinha de tradicional família local, bem conceituada, e que um dia chegou a ser a mais rica da cidade, a mandar econômica e politicamente na comunidade, mas, após a morte do patriarca, os herdeiros não souberam lidar com o império deixado pelo velho, uma grande indústria de calçados que exportava para o mundo inteiro, agora sobrando apenas a casa em que moravam, e uma pequena indústria, quase doméstica, dos mesmos calçados. Então, o que lhes restou foi muito mais nome que dinheiro e bens.

Também, Clara sempre dera demonstrações de carinho, de zelo para com ele, e de total e incondicional entrega, espiritual e física.

Os pais dela, que chegaram a comemorar as bodas de ouro sem qualquer rusga, eram católicos praticantes, de missa e comunhão aos domingos, e sem qualquer mancha no nome que gozava de grande prestígio e respeito junto à sociedade local. Tudo isso levava Lúcio a acreditar na idoneidade do caráter de Clara, na sua beleza interna, além da grande atração física que por ela sentia. Enfim, Clara não tinha qualquer defeito, só virtudes.

Lúcio era um viciado no jogo de pôquer, por isso freqüentava, não só esse cassino como outros, tanto no Brasil como no exterior, e por isso conhecia bem, principalmente; Las Vegas, Buenos Aires, e outras cidades onde houvesse cassinos. Porém, por causa dos compromissos como grande empresário, não tinha tanto tempo disponível para viajar, e então, jogava nos cassinos clandestinos daqui mesmo.

E foi nesse cassino que Clara conheceu Jairo, jogador profissional, malandro por excelência, galã e mulherengo, que sabia de sobra como conquistar uma mulher, principalmente uma como Clara, que tinha o instinto à traição, mas não tinha vivência, por isso era uma presa fácil. Então, quando soube da sua história, do seu grandioso e próximo futuro, viu nela a fragilidade, disso se aproveitou empenhando-se de corpo e alma a conquista-la, e principalmente ganhar sua confiança, o que não foi difícil, nem demorou muito a conseguir muito mais que seu amor, tanto espiritual quanto sexual que ele, de longe, batia Lúcio.

Também Clara, que não era bem a “santa” que Lúcio imaginava, pensava: “ Sei que, casando com Lúcio, voltarei a ter a vida de luxo, de requintes, de conforto e regalias que sua fortuna poderá me proporcionar, mas, eu amo Jairo, e sem ele nada disso fará sentido.”

Foi assim que ela caiu direitinho na lábia de Jairo que, com sua esperteza e vivência, colocou logo em prática e, tendo ganho a confiança dela, fez com que aceitasse seu plano. Porém, o que Clara não sabia, nem podia imaginar, é que Jairo só a queria na cama, mesmo assim até ter toda sua fortuna, depois a abandonaria e a deixaria “a ver navios” e fugiria para um outro país qualquer para ficar com Dalva, uma antiga paixão sua, e assim passaria a ter a vida que pedira a Deus.

O que aconteceu foi que, durante o jogo, do qual participavam Lúcio e Jairo, mais outros três, Clara permanecia quase todo o tempo de pé, atrás de Lúcio, encostada num móvel tomando uma taça de champanhe.

Em frente de Lúcio havia uma porta de vidro, e nela ele via perfeitamente a imagem de Clara.

Então, mesmo concentrado no jogo, começou a observar Clara que tentava, com uma mímica das mãos e dos lábios se comunicar com alguém.

Ao olhar para Jairo que estava à sua frente, viu que o mesmo não tirava os olhos de Clara, e que, também, lhe dirigia um maroto sorriso, e era correspondido.

Então, percebendo a traição ali mostrada, num arroubo levantou-se, e virando-se para trás, desferiu, com as costas da mão direita, um tremendo tapa no rosto de Clara que jogou longe a taça de bebida, e caiu ao chão violentamente.

A essa altura Lúcio já tinha, à mão, um 38 engatilhado e apontado para Jairo que, caído ao chão, olhava estarrecido. Depois, voltando-se novamente para a mesa, debruçou-se sobre a mesma, totalmente transtornado. Agarrando Jairo pelo colarinho e gritando palavras de ordem, arrancou-o da cadeira e o jogou para trás, contra a porta de vidro onde foi bater com toda a força,

Clara, ao ver seu amado com a vida ameaçada, jogou-se nas costas de Lúcio agarrando o braço que segurava a arma que desviou-se da direção de Jairo e, deflagrando um tiro, foi a bala atingir garrafas de bebida no bar, estourando-as.

Os presentes, alguns se jogaram ao chão, outros se protegeram sob as mesas, e em qualquer lugar, apavorados.

Lúcio empurrou Clara para longe e lhe apontou a arma. Depois, virou-se apontando-a para Jairo novamente, porém, fazendo uso de um grande auto controle, ficou a olhar Jairo longa e silentemente,

Nesse instante, tudo parou. E reinou grande silêncio e suspense no ambiente. Ninguém sabia o que poderia acontecer daí pra frente.

Foi quando Lúcio mandou Jairo se levantar e se sentar na mesma cadeira na qual sentara enquanto jogavam, bem à sua frente. Fez com que Clara se sentasse na cadeira ao lado dele, e se sentou na cadeira, mesma que sentara durante o jogo fazendo com que Clara ficasse entre ele e Jairo.

Calmamente, e com todos os presentes paralisados de medo e pânico, Lúcio mostrou ser grande jogador, e que tinha um excelente e interessante humor. Pegou a arma, abriu o tambor da mesma esvaziando-o das cinco balas intactas e da cápsula da bala deflagrada, pegou somente uma bala, encaixou-a no tambor, girou-o e, antes que parasse, num gesto viril e rápido, o retornou ao lugar onde deveria ficar; na posição de tiro.

Colocou a arma no centro da mesa com o cabo virado para ele.

Foi aí que todos entenderam inclusive Jairo, que Lúcio o desafiava para um duelo na roleta russa, e que ele próprio seria o primeiro a arriscar. Sem qualquer palavra e sob um silêncio sepulcral, apanhou a arma, apontou-se para sua cabeça, e apertou o gatilho.

Ouviu-se apenas um “click”, nada mais. Só alguns murmúrios dos presentes.

Chegou a vez de Jairo.

Esboçando um leve, porém, contraído sorriso, apanhou a arma, abriu o tambor, girou-o e, antes que parasse, armou-a, levou-a à cabeça e apertou o gatilho.

Novamente ouviu-se o “click”, e um grande e profundo suspiro ele deu.

Lúcio, calmamente apanha a arma, olha longamente para Clara que a tudo assiste estarrecida, mas, impávida. Faz todo o ritual, aperta o gatilho e, outro “click”.

Alguém na platéia chega a pedir com a voz angustiada que parem, mas, nenhum dos dois comunga da vontade do espectador, e Jairo apanha a arma.

Cumpre com o mesmo ritual, olha para Clara que já pede aos céus que a bala não esteja na agulha, e algumas lágrimas lhe escorrem silenciosamente pelo lindo rosto, pálido...

Silêncio profundo, todos rezam ou choram um choro contido.

Jairo olha para Lúcio como quem olha para o demônio, e puxa o gatilho.

Ouve-se um estampido, e o vestido de Clara, que era branco, suja-se do sangue de Jairo cujo corpo pende para o lado direito, e cai ao chão, inerte.

Nesse momento, a câmera dá um “close” no lindo rosto de Clara, e o mundo para, inclusive atores e telespectadores desse capítulo 45 da telenovela das oito.

Um comentário: