O B A N D I D O 05/ 09/ 09
Chegou no dia anterior, arrogante, dizendo ser, sim, o chefe da gang de traficantes da favela. E mais; “gosto de cheirar também!”
Livre dos grilhões das algemas, mas dentro, foi atônito e rápido aos quatro cantos da cela, e voltou ao centro dela parando ali, donde vislumbrava uma imaginária linha reta que se concretizava à sua frente, e o conduzia ao eixo da porta de grade que o encerrava dentro.
Recuou de marcha à ré até a parede dos fundos da cela, e tocou com as costas nuas o concreto úmido, bolorento e frio, rígido, pouco mais que seus músculos travados por uma contratura inconsciente, involuntária, carente...
O suor lhe brotava por todos os poros, e um ranger de dentes partia de dentro da sua boca trancada. Seus punhos, cerrados, duros como se feitos de baraúna, pareciam os de um lutador na hora de desferir um golpe. E nessa luta que travava contra o desespero, não achando o rosto do adversário, que na realidade era ele próprio, tentava se domar. Por pouco não desfaleceu ao, de repente, perder as forças, sem entregar-se ao tardio arrependimento que por acaso pudesse acontecer.
O efeito da última dose estava se esgotando. Dentro, sua mente gritava para todos em silenciosos e estarrecedores gritos. “Sou o mandante de todos os mandos, o comandante de todos os comandos!”
Enfim, ele era, para ele, o dono do mundo.
Tinha na sua mente inglória, uma falsa glória, uma falsa ilusão sobre o que é o verdadeiro poder.
Tudo porque, envolto por sua extrema ignorância, não via, do outro lado do véu translúcido, exatamente, a realidade dele. Sentia terrível medo inconsciente de a encarar. Sentia-se o eixo que suportava todas as forças contrárias que giravam em torno o tentando desequilibrar. “Sou o dono de todos os donos, sou forte e poderoso demais!...”
Sentia-se o “todo poderoso” pela imensidão que ainda fazia da sua figura dentro da sua mente insana, e não via que era, na verdade, o fraco pedestal onde toda sua imaginária força em falência se apoiava, e que ora ruía.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
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A decadência do ser...poderia se tranformar numa parábola, e, servir de exemplo a todos que fazem o mal, pensando que tudo termina bem ...
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