B R E J E N I L D O E M B E L O H O R I Z O N T E
Vindo diretamente da roça, tempão pra juntar o dinheiro da passagem, o simplório, desajeitado e matuto Brejenildo, apesar dos seus 32 anos de idade nunca tinha vindo à cidade grande. Desce do ônibus na rodoviária, aquele trambolho no início da Av. Afonso Pena, sobe as escadas e chega ao movimentado hall principal e, de pronto, se assusta com o agitado movimento de pessoas no grande saguão.
Depois, com seus 1,85 m. de altura, desengonçado, magricela, e meio curvado para frente, trajando um terno novo, listrado, calças pega frango seguras por um par de suspensórios, uma camisa listrada na horizontal e, na cabeça, um surrado chapéu já meio arredondado com as abas a parecer com o de Santos Dumont. Nos pés um par de botinas novas, de cano curto. Continuando o reconhecimento do local, caminhou alguns metros e chegou até a porta principal e deu de cara com a pista onde param os carros para embarque e desembarque de passageiros, e ficou por longos 20 minutos a apreciar a beleza da Avenida Afonso Pena à sua frente, pasmo com a altura dos prédios e com o barulhento e emaranhado trânsito; com o borburinho da cidade grande. Ah, ia me esquecendo do surrado e meio desbotado guarda chuvas pendurado num dos braços.
Ele veio de longe. Viajou mais de 6,00 horas para fazer uma consulta por causa de problemas com a hemorróida com um médico proctologista do posto de saúde do Padre Eustáquio, exame esse que, segundo lhe informaram os maldosos “amigos”, o deixaria “vexamado”. Como a consulta estava marcada para as 16,30 horas e ainda eram 12,00, resolveu dar um bordejo pela cidade. Desceu o degrau e, de pronto, levou um baita susto com a buzina do táxi que acabara de arrancar a toda com um passageiro a bordo. Se refez do susto e desceu a rampa chegando na praça em frente. Alí ficou paralizado diante daquele monumento que ninguém, só mesmo o autor, sabe dizer o que representa cada parte dele. (Realmente, é muita coisa para aquele monstro de concreto, de linhas retas, longas “pernas”, e com um buraco no meio. Já li sobre ele e, francamente, achei difícil ver ali tudo o que o autor diz ter). E foi isso que o Brejenildo viu e ficou tão “abilolado” quanto eu, chegando a tirar o chapéu e coçar a cabeça como quem se pergunta: “Que troço é esse?”
Passado o desassossego, meteu o surrado chapéu na cabeça e tomou o rumo da calçada do lado direito da Avenida Afonso Pena. Logo na esquina com a Rua dos Caetés o “matutão” se complicou todo, pois nunca tinha visto um sinal de trânsito ao vivo, só em fotos e pela tv., inda mais com um boneco que, ora acendia verde, ora vermelho. Tomou vários sustos ao tentar atravessar quando, ao por um pé na rua, quase era atropelado pelos carros e pelos ônibus que passavam raspando nele a 60 por hora, rugindo, buzinando, e deslocando o ar bruscamente. Então, Brejenildo resolveu observar as pessoas, e notou que, quando o bonequinho ficava verde, os carros e ônibus paravam e os pedestres atravessavam. Assim, esperou sua vez, e se deu bem caminhando todo satisfeito porque já tinha aprendido uma coisa importante; usar o sinal de trânsito. E se pôs a caminhar lentamente pela calçada rumo à Praça Sete, sempre olhando para os prédios, de alto a baixo, impressionado com eles e com o movimento de carros e de pessoas, e com o burburinho constante. Virava e mexia, distraído, olhando para o alto, levava um tranco de alguém que andava às pressas em sentido contrário ao dele. Ele se deslocava meio desequilibrado, balançava feito o Balança Mas Não Cai, mas se recompunha novamente, até que, já quase chegando na esquina da Avenida com a Rua dos Carijós, levou um baita ombro a ombro de um bem malhado garotão, daqueles que não conseguem fechar os braços de tanto músculo, que não sai da sua reta, e só anda em velocidade bastante acelerada. E o pobre do Brejenildo saiu desequilibrado, de lado, a toda, entrando todo desengonçado numa lanchonete que ficava ao seu lado, girando o maldito guarda chuva como se fosse uma hélice indo de encontro a uma gorda senhora que calmamente, de pé, tomava um copo duplo de caldo de cana fazendo com que esse copo subisse e voltasse em forma de chuva em cima da pobre senhora que desandou a dizer palavrões a toda altura e a querer atacar o pobre que se encontrava sentado no chão agarrado ao seu inseparavel guarda chuvas, com uma cara de assustado, pedindo mil desculpas. Envergonhado e todo desengonçado, se levantou, se ajeitou como pôde, e saiu de fininho andando de costas, voltando para a calçada onde esbarrou em várias pessoas de uma só vez, mas, firmou-se e recomeçou o seu turismo ainda se refazendo do susto.
Pouco à frente, observando o Pirulito da Praça Sete, o trânsito, os prédios, inteiramente ligado nesses pontos, “trupicou” numa pedra com a ponta da botina, e saiu tão acelerado quanto um bólido, catando cavacos a meia altura, com o corpo totalmente inclinado para frente, por uns 6,00 metros, rodando desesperadamente seus longos braços, e numa das mãos aquele maldito guarda chuvas que acertou em cheio o coco de um garotinho que andava seguro pela mão da sua mãe que o segurou depois do mesmo dar uma volta completa em torno de si, e que lascou um “safatapa” de mão fechada no lombo do pobre Brejenildo que tomou mais velocidade ainda, além de um xingamento sem precedentes. Continuando sua desesperada carreira, logo à frente enfiou a cabeça, com chapéu e tudo, no vidro do carrinho de pipocas estacionado na esquina virando o mesmo por sobre o pipoqueiro e uma garotinha que ele atendia do outro lado. O fogareiro aceso derramou o querozene e botou fogo no avental do pipoqueiro ainda preso sob o carrinho tombado, e no próprio carrinho que era de madeira.
Ajudados pelos pedestres, Brejenildo, o pipoqueiro e a garotinha foram colocados de pé, e conseguiram se recompor e apagar o fogo do avental, e a garotinha muito assustada chorava desesperada, completamente descontrolada de dar pena. O fogo no carrinho continuava. Então, um motorista de um táxi que estava parado na pista da avenida esperando o sinal abrir para entrar na Av. Amazonas, não titubeou. Pegou o extintor de incêndio do carro, e o abriu a toda sobre o carrinho, pegando em cheio no Brejenildo que se encontrava no trajeto do pó branco que o cobriu de cima a baixo, inteirinho. Ficou a parecer um fantasma matuto, estático, com os olhos esbugalhados ao ver um cenário de tamanha destruição em tão pouco tempo, e com os gritos desesperados da garotinha que chamava insistentemente pelo seu pai.
O fogo foi apagado, e em meio à confusão, assustado com medo do pai da garotinha e do pipoqueiro, um portugues que xingava à maneira da sua terra, Brejenildo saiu correndo, parecendo uma visão branca, em disparada, pela Rua dos Carijós até a esquina com a Rua São Paulo onde deu uma parada para tomar fôlego. Estava inteiramente desnorteado e não sabia que rumo tomar; se continuar a Carijós, se subir ou descer a São Paulo...
Desatinado, entrou numa loja de roupas na esquina sujando de pó branco as roupas que se encontravam em exposição, e foi perguntar às atendentes como pegar o ônibus para o Padre Eustáquio. Elas, penalizadas, vendo a inocente confusão mental do pobre, e com seu estado de alvura, o conduziram para o banheiro da loja onde pôde se limpar um pouco, se recompor e acalmar.
Mais calmo e meio refeito do susto, o “matutão” saiu às pressas e tomou o ônibus, apesar de ainda não estar na hora da consulta. Eram 13,45, mas ele não quis mais se arriscar na cidade que começava a ameaçar sua segurança.
Assim, foi se relaxando ao curtir as paisagens vistas da janela do coletivo, e ficou impressionado por ver como o motorista metia aquele bólido por entre os carros, fazia as curvas a toda, e brecava violentamente nos sinais e nos pontos de parada. Ficou o tempo todo atarracado no banco à sua frente e chamando por Nossa Senhora, incomodando o passageiro que nele estava sentado e que, a certa altura, virou para trás e lhe deu uma grande bronca. Brejenildo suava frio, apavorado como se estivesse numa montanha russa, no carrinho da frente.
Enfim, chegou ao bendito prédio do INSS, e por desconhecer, desceu num ponto fora do sinal de pedestres. Com o movimento intenso de carros, juntado à sua total falta de prática, levou alguns sustos, e uns 15 minutos para atravessar a Rua Padre Eustáquio naquele horário de muito movimento. Depois, pôs-se a dar voltas no quarteirão, entrando e saindo de vários portões procurando pelo local da consulta, até que encontrou, num dos corredores, uma placa indicando; “PROCTOLOGISTA.”
Deu um grande e profundo suspiro de alívio, e relaxou, mas agora bem mais preocupado com o exame que iria fazer. Afinal, prá ele, criado sob grande rigidez religoisa, aquele local era sagrado, e se tocado, mancharia de vez a sua honra, além de pensar que seria um pecado mortal porque os amigos maldosos lhe disseram que ele poderia se acostumar..., gostar..., e aí, mudaria de lado. Isso o preocupava mais que tudo e fazia até que tivesse impulsos de deixar tudo prá depois, depois...
Mas a danada da hemorróida incomodava e doia muito, além de frequentemente sangrar e lhe sujar a roupa, muitas vezes quando estava na rua.
Porém, em nenhum momento deixou de pensar naquela posição de burrico desprevenido, com o bundão magricela prá cima, e no dedão do doutor. Que tamanho e grossura ele teria? Porém, o que muito mais o assustava era pensar: "E se o dotô fô um tarado e se impricá cumigo? Eu sei que sô feio cumo a peste, mais dizem que esses bicho num iscolhe cara, que dirá bunda! Se acontecê, eu saio correndo, pelado, com as carça na mão ou sem as carça, mais com minha honra resguardada pruquê, omi não! E seja o que Deus Pai quisé, mais num vorto mais aqui e em nenhum otro dotô desses médico de mexe no cú da gente. Eu morro com essa morróida mais num vorto!"
Mesmo assim, depois de repensar tudo que enfrentara até chegar aqui, resolveu entrentar o doutor.
Ao seu lado viu um bebedouro, e sentiu que estava com sêde. Ficou olhando uma pessoa que o estava usando, como fazer. Quando chegou sua vez, apertou o gatilho e levou um belo jato d’água no rosto, tomando um belo banho e ainda dando um banho num senhor que estava atráz dele esperando a sua vez. Desajeitado, pediu mil desculpas, pegou seu lenço encardido no bolso do paletó, e enxugou o que pôde, ele e o senhor que o afastou com um safanão daqueles e um xingamento bem afinado.
Saiu sem beber a água, pois ficou tremendamente envergonhado já que havia pessoas por perto a rir do acontecido, principalmente um sardento garotinho, pimentinha, que além de dar risadas pra valer, apontava pra ele e falava com sua mãe; “mãe, olha a cara dele toda molhada, olha, ele ta parecendo um pinto molhado, não está mamãe?” Rubro de vergonha, mas aguentando-se, chegou até o local onde havia uma fila enorme para a triagem. Como ainda era cedo, sentou-se numa cadeira e esperou. Quando faltavam 15 minutos para a consulta, entrou na fila orientado por uma pessoa que já tinha prática e já percebera a falta de jeito do Brejenildo.
Levou um bom tempo até chegar ao balcão de atendimento.
Chegada a sua vez, à atendente de cara feia e que demonstrava total desinteresse para atender, ele entregou toda a papelada e seus documento.
Então ela lhe disse de pronto, sem pestanejar:
"Senhor Bejenildo. O senhor está muito adiantado porque sua consulta é para o dia 12 sim, mas do mes que vem. O próximo?"
quarta-feira, 21 de abril de 2010
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Uma trajetória cômica e dramática descrevendo os detalhes pitorescos de Brejenildo que além de enfrentar a cidade grande numa sufocante aventura,vai em busca do temido exame destinado á prevenir o ainda mais temido câncer de próstata...Tudo muito engraçado,mas o mais engraçado foi ver Brejenildo "enganar" o instituto´,chegado um mês de antecedencia,sendo assim a espera seria de ,pelo menos 2 meses...Parabéns, ainda bem que esse conto é " ficção"!!!
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